quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Medo ou Fobia?



Eu já escrevi antes, aqui no blog, do problema que temos hoje em dia em usar uma terminologia patológica para sentimentos comuns do cotidiano, como chamar toda tristeza de depressão e toda ansiedade de Pânico. Questão puramente de pouco conhecimento, esse tipo de ocorrência se torna especialmente complicada quando a patologia realmente está presente e não é levada a sério.

É o caso, muitas vezes, do que acontece em relação às fobias e ao medo normal Vs patológico. Porque medo, é um fato, todo mundo tem. Mas todo mundo MESMO. Mas quando saber que é a hora de levar aquele medo um pouco mais a sério e reconhecê-lo como ele realmente é: uma fobia? Será que esse medo merece tratamento?

Quando um tipo de sentimento é muito presente no nosso dia a dia, costumamos dizer que ele é normal. Eu já prefiro dizer: é COMUM, mas não necessariamente normal. Por exemplo: ter medo de assalto é bem comum (muita gente tem), mas tem medo de assalto que não é normal (se você está dentro de casa e não tem nenhum ladrão ou sinal de assalto, por exemplo).

A diferença entre normal e patológico é o que vai, via de regra, orientar o nosso encaminhamento em relação a um medo. O que precisa de tratamento é o medo ANORMAL, ou PATOLÓGICO. E alguns medos não devem nunca ser eliminados, pois são funcionais e vitais para a sobrevivência do indivíduo.

Imagine a cena: você está na beira de um penhasco e não sente MEDO NENHUM. Nem um friozinho no estômago, nem uma tensãozinha no corpo. Isso é normal? O que acontece com um organismo que está super “zen” na beira de um penhasco? Ele apenas fica por ali... olhando a vista, meditando, lixando as unhas... e o tempo que está exposto à altura aumenta, exponencialmente, sua chance de cair! Já um organismo que sente medo irá, instintivamente, se afastar do perigo, se mantendo vivo e seguro.

Este é um exemplo típico de um medo “normal” – além de normal, ele é o que chamamos de filogenético, ou seja, é próprio da nossa espécie e vem sendo, ao longo dos séculos, selecionado naturalmente no processo evolutivo do homem (indivíduos que tem medo de cair do penhasco sobrevivem mais e reproduzem mais). Assim como o medo de altura, outros medos também são explicados por esta característica de serem grandes protetores do indivíduo. Um outro exemplo bastante comum é o medo de animais pequenos, como insetos, vermes etc (um desses bichinhos pode entrar em nossas narinas e nos asfixiar. Reza a lenda que o medo que o elefante tem do rato também segue essa linha, pois o rato poderia entrar em sua tromba e asfixiá-lo).

O medo tem característica, portanto, FUNCIONAL: ele ajuda o indivíduo a agir de maneira adequada, o preparando para um desfecho mais seguro e previsível. Quando você está andando pela rua e vê uma pessoa suspeita com uma arma na mão, você muda de lado da calçada, entra numa loja, sai correndo. O medo que você sentiu te ajudou a se comportar de um jeito bom, e você se protegeu.

Muitos exemplos do nosso dia a dia podem ser analisados à luz dessa ideia de funcionalidade: o medo súbito quando seu chefe te chama na sala dele com cara de bravo pode ser explicado assim: você acha que ele vai te demitir, e isso pode significar problemas financeiros, e por consequência escassez de alimento, que é outra coisa fundamental para sua sobrevivência.

Podemos generalizar dizendo, portanto, que o medo é uma resposta de um organismo frente a uma situação de ameaça. Até aqui, tudo bem.

Mas e quando o medo não está relacionado a nenhuma ameaça clara? E se o seu medo for, por exemplo, de elevador? Nenhum animal das cavernas teve medo de elevador. Nem cachorros são ameaçadores 100% das vezes, e como explicar que tem gente que AMA cachorros, e gente que só de ver um cachorro já começa a chorar e suar? Alguma outra coisa está acontecendo aí... porque estamos fora do âmbito da sobrevivência da espécie. Este é um medo injustificado, ilógico, ou em relação ao qual você pode ter uma reação absolutamente desproporcional.

Se você vê um rottweiler correndo e rosnando na sua direção, esse medo se justifica. Mas por que então ter uma reação de medo diante de um filhotinho de poodle? E o elevador? Ele não rosna nem morde. E você simplesmente não entra num elevador.

Considerando essas ideias, podemos começar a distinguir bem claramente o medo normal do medo patológico, ou fobia: o medo patológico não está ligado a uma ameaça necessariamente real, e é caracterizado, via de regra, por um comportamento EVITATIVO em relação ao objeto de medo. A evitação de coisas temidas é funcional quando o medo é normal – entretanto, quando o medo é patológico, o que se observa é que essa evitação é, a um mesmo tempo, provocada pelo medo, mas também um fator de manutenção do medo.

Vamos exemplificar:

Uma pessoa que tem fobia de elevador, ao se deparar com uma situação em que precisa pegar o elevador, sente muito medo e vários sinais de ativação autonômica aparecem em seu corpo (suor, tremor, taquicardia etc). Diante desse mal estar horrível, ela resolve subir de escada e, assim, se livra de sua angústia. Mas toda vez que ela se depara com essa situação, esses sinais voltam. Ou seja: o problema continua, apesar dela se esquivar sempre.

O comportamento de evitar a situação produz alívio. E o ser humano busca sempre o conforto e o alívio. O que ocorre é que, em pouco tempo, sua ansiedade é REFORÇADA pelo comportamento de evitação: toda vez que esta pessoa evita o elevador, a ansiedade vai embora, e assim ela nunca aprende a lidar com sua ansiedade de uma maneira que não envolva fuga e esquiva. Cria-se um padrão que irá conduzi-la nas situações em que sentir medo e ansiedade: é só “fugir”. Com o tempo, a pessoa começa a fugir sem nem ao menos estar em contato com a situação – ela passa a fazer de tudo para sequer esbarrar na possibilidade de sentir medo de novo.

Percebe-se, portanto, que o que em situações de medo normal é bastante funcional (se vir um rottweiler bravo por perto, não fique dando bobeira!), em situações de medo fóbico essa evitação acaba por cristalizar o problema e por causar uma restrição no repertório comportamental desse indivíduo, criando problemas para ele. Imaginem subir 20 andares de escada? Ou não sair de casa porque você pode se deparar com um cachorrinho na esquina?

Portanto, uma diferença FUNDAMENTAL entre o medo normal e o patológico é, bem como em outras situações de doença mental, o nível de PREJUÍZO e de sofrimento que o indivíduo tem por causa daquilo. Se você não gosta de baratas, mas sua vida segue normal, você dificilmente precisa de um tratamento. Mas se você evita lugares, sente medo o tempo todo, não vai na casa de amigos, abandonou o trabalho (só alguns exemplos mais dramáticos) porque teme cruzar uma barata no caminho, bingo: você tem uma fobia.

Ao conversar com uma pessoa que apresenta algum tipo de medo patológico, é frequente encontrar algum episódio de início do problema. Por exemplo, um arranhão na cara aos 5 anos e hoje o adulto não pode ouvir nem o “miau” de um filhote de gato. Mas, não raro, um indivíduo pode não ter nenhuma história traumática com o objeto de medo. Isso pode acontecer pelo que chamamos de modelação (observação de outras pessoas significativas tendo reações fóbicas, com imitação) ou ainda por condicionamento.

O medo condicionado é um medo aprendido e que pode ser secundário a objetos primários de medo. Situações aversivas têm um poder de generalização que pode transportar para outros objetos ou elementos a emoção de medo sentida anteriormente. No vídeo abaixo, temos uma das primeiras experiências de medo condicionado por pareamento a estímulo aversivo. Quando duas coisas ocorrem simultaneamente, e uma delas é muito aversiva, a outra pode passar a carregar a mesma carga de aversividade.


Atualmente, dividimos as fobias em 3 grandes categorias: as específicas, a social (hoje chamada de Ansiedade Social) e a agorafobia (fobia a locais abertos onde a fuga para um local seguro é dificultada). Todas as 3 apresentam o mesmo funcionamento: resposta emocional desproporcional a algum elemento, evitação do mesmo e consequente restrição comportamental.

Isto posto, suponhamos que você descobriu que o que você tem não é frescura, nem xilique, nem uma coisa bizarra, você tem uma fobia. Sim, você deve levá-la a sério. Quem tem uma fobia tem mais pré-disposição a desenvolver outras fobias ou Transtornos Ansiosos, o que já é mais do que motivo para procurar um tratamento.

O tratamento padrão-ouro (o mais eficiente) atualmente é a Terapia de Exposição, uma técnica comportamental que se baseia no fenômeno da habituação para a eliminação da fobia. A habituação é um processo através do qual um organismo, exposto por tempo prolongado à situação aversiva (ou seja, sem resposta de esquiva), deixa de sentir ansiedade e os sinais de ativação autonômica deixam, após algum tempo, de ser emitidos. Este é um fenômeno natural do organismo, que vai “relaxando” à medida que vai identificando que o perigo não está afetando sua integridade física / pessoal.

Na Terapia de Exposição, o paciente será gradativamente confrontado com seu medo, até que a resposta de ansiedade e esquiva desapareça por meio da habituação. Isso significa, necessariamente, que é preciso CONFRONTAR a situação temida, e que a ansiedade e o medo estarão presentes. Entretanto, o procedimento é elaborado de maneira a que o paciente seja sempre exposto a um nível mínimo de ansiedade, indo aos poucos ganhando confiança e sentindo que pode adquirir mais controle sobre seu medo.

A Terapia de Exposição é uma técnica detalhada e específica, e deve ser conduzida por um profissional treinado e preparado para as dificuldades do processo. Sim, existem várias dificuldades – a própria ideia de ficar exposto ao objeto fóbico já é, muitas vezes, o suficiente para a pessoa abandonar o tratamento antes mesmo de começar, mas o profissional qualificado cuidará de elaborar um processo compatível ao nível de tolerância do paciente.

A Exposição é extremamente eficiente. Portanto, se você tem ou conhece alguém com alguma fobia, não deixe de procurar ajuda ou de incentivar a pessoa a procurar tratamento. As fobias roubam qualidade de vida, podem levar à Depressão, e são hoje um problema tão comum que muitas vezes são subdiagnosticadas por anos à fio, levando a mais e mais sofrimento.



Um comentário:

Carol Cavalcante disse...

Oi Ana Paula, me chamo Carol, tenho 20,anos. Estou sofrendo muito com minha timidez e com que ela ta causando na minha vida. Não faço amigos, não consigo falar em público, por exemplo, apresentar trabalhos. Ja aconteceu de eu não passar ou falar com alguém que eu conheça por que tinha muita gente. Ou ir à casa de alguém conhecido por vergonha, não sei o que eu faço. Bjs